por Luiz Carlos Azenha
Os militantes de partidos de esquerda que foram à avenida Paulista
nesta quarta-feira — e se identificaram com suas bandeiras — foram
seguidos continuamente por um grupo considerável de manifestantes aos
gritos de “sem partido”. Houve empurra-empurra, troca de insultos,
agressões físicas e a tomada de bandeiras vermelhas, que eram em seguida
queimadas. Isso aconteceu até mesmo com bandeiras do PSTU, cujos
militantes gritavam palavras de ordem contra o governo Dilma durante a
passeata.
Desta feita o formato da celebração organizada pelo Movimento Passe
Livre foi distinto. Os integrantes do MPL vieram na frente, seguidos
dentro do mesmo cordão de isolamento por gente do PSTU, PCO, PCdoB e
PSOL (não necessariamente nesta ordem). O último grupo misturava
militantes dos movimentos sociais — como UNE e MST — a petistas com meia
dúzia de bandeiras do partido. Um cordão de isolamento fechava a
passeata e ficou todo o trajeto exposto a xingamentos e tentativas de
agressão.
Quem atacava era um grupo razoavelmente organizado. Tentativas de
identificá-los foram inúteis. Todos se diziam apenas “apartidários”.
Além de “fora PT, leva a Dilma com você”, gritavam também “o povo,
unido, não precisa de partido”. Houve vários bate-bocas ao longo do
trajeto. Em resposta aos gritos de “sem partido”, militantes de esquerda
gritavam “sem censura, acabou a ditadura”. A tensão na manifestação
durou enquanto os vermelhos desfilavam com suas faixas, bandeiras e
cartazes (os do PSOL, amarelos).
O risco de violência física fez com que boa parte deles se
dispersasse bem antes de atingir o prédio da TV Gazeta — partiram da
esquina da Paulista com a Consolação.
Outra vez a manifestação teve de tudo: protestos contra a Copa, a PEC
37 e o deputado Feliciano. Jovens de classe média eram majoritários.
Havia skatistas, punks e estudantes de ensino médio, misturados a
anarquistas e gente que aparentava ser neonazista. Notei várias pessoas
que pareciam policiais à paisana. A Polícia Militar acompanhou
desarmada, à distância.
Os únicos militantes que levaram faixas contra o governador tucano
Geraldo Alckmin, que desatou a repressão sem precedentes contra o
Movimento Passe Livre, estavam dentro da passeata de esquerda.
A certa altura, duas passeatas corriam paralelas: numa pista, os
militantes de esquerda; na outra, os de direita, que se agacharam e
começaram a gritar “fica em pé turma da corrupção”, ou algo assim.
Testemunhei várias situações em que militantes de esquerda
argumentavam e discutiam com os de direita, sem agressões. Os primeiros
eram acusados de “oportunismo”. Respondiam gritando “fascismo”,
relembrando que Mussolini também governou sem partidos.
Todos os militantes de esquerda com os quais conversei se mostravam preocupados. Um deles, chorava.
Aparentemente, no vácuo da desorganização da militância que se deu
paulatinamente depois da chegada do PT ao poder, a direita brasileira
construiu um quadro razoável de ativistas organizados. Hoje eles
carregavam cartazes: “Dilma vaca”, dizia um; “Goleiro Bruno, fica com a
Dilma e deixa o resto com o Macarrão”, dizia outro.
Igor Fellipe, integrante do MST, acompanhou tudo de perto: “O grupo
que agrediu o bloco de movimentos sociais, organizações políticas,
movimento estudantil, sindicalistas e os partidos era de encapuzados,
muitos bombados, parte deles deve ter sido paga e outra parte caiu nessa
onda conservadora de agredir”.
“O mais assustador é que a violência começou com foco no PT, mas
quando a militância petista se dispersou entre os outros partidos, as
agressões se voltaram contra toda a esquerda, do PSTU ao PSOL, do PCdoB
ao PCO”, continua.
“Ou seja, é um sentimento antidemocrático contra qualquer organização
política”, diz Igor. “O que foi impressionante é que todos fomos
agredidos juntos. A esquerda se uniu sob o cacete da direita”,
continuou.
O nível de agressividade contra o PT em particular e as bandeiras
vermelhas em geral era organizado. “Foi orquestrado para fazer com que
essa nova classe média se revolte contra os partidos”, concluiu Igor.
Tirando esta polarização mais aguda e localizada, a manifestação foi
bastante tranquila e com muitos pedidos de “sem violência”, assim que se
armava alguma confusão.
Porém, a repulsa aos partidos teve cenas preocupantes. Várias
bandeiras e faixas vermelhas foram “capturadas” por incursões no meio da
passeata de militantes de esquerda. Numa delas deu para ver claramente a
estrela do PT. Em seguida, eram queimadas diante de fotógrafos e
cinegrafistas. Assisti a algumas incursões, de longe. Depois de uma
delas, no meio da confusão, notei que meia dúzia de militantes levantou
seguidamente o braço direito e gritou três vezes “sieg heil”.
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