quarta-feira, 8 de julho de 2009

Rapadura cultural

Com o apoio da Associação dos Lavadô de Parabriso Ltda., Chaguinha Engraxate, Joaquim dos Bom-bom, Juca Pidão, Judite das Pomonha, Lula Pipoqueiro, Neusa das Tapioca, Neusa de Birro, Neusa do Muncunzá, Ontõe Carroceiro, Tonha dos Din-din, Zé do Carrim de Bom-bom, Zé Patuá e Zeca Franelinha, começa mais um programa "Rapadura Cultural". Dessa vez, mais popular. Aos dez anos, levando às ruas o que há de mais popular, Jorge Carvalho, o radialista, professor de escola pública há mais três décadas, faz o que mais gosta: estar próximo do povo, com o rádio, levando o seu "Espaço de Inclusão Social". Esse é o slogan mais atual, dado pelo memorialista Huberto Cabral.

Próximo sábado, 11, vaqueiros se deslocam a partir das 14 horas, da Praça da Sé, no Crato, em direção ao Parque de Exposições. Uma homenagem especial ao mais antigo, com vida, seu Mascarenhas, aos 92 anos. E assim seguirão durante o dia, entrando pela noite as inúmeras homenagens, com Diplomas de Honra ao Mérito e Gratidão sendo entregues. Um espaço que se tornou popular no Centro da cidade e agora, há um ano, nos bairros, toma uma feição mais popular ainda. "Há uma participação maior das pessoas", diz Jorge, ao explicar que saiu da praça por conta da descaracterização do espaço, desde a reforma.

A idéia de ir para os bairros, nasceu com o folclorista Francisco Correia Lima, o Correinha, e Jorge afirma estar satisfeito com a proposta que passou a se efetivar após a morte do seu amigo e inspirador, juntamente com o poeta e radialista Eloi Teles de Morais, dois eternos homenageados por ele, que remete à admiração desde a sua infância. "Dedico esses dez anos a eles, as duas grandes referências da cultura popular que tenho, para o início e continuação desse trabalho".

A Rádio São Francisco, no Bairro Pinto Madeira, no Crato, foi onde tudo começou. Um espaço das 19 às 20 horas do domingo, dia 10 de julho de 1999, estava vago. Não deu outra, Jorge colocou embaixo do braço uma discografia bem a cara do Cariri. Abdoral Jamacaru, Luiz Carlos Salatiel, Pachelly, os irmãos Aniceto e pronto, estava iniciado, mesmo informalmente, o programa, que durou alguns meses no estúdio. Nos últimos sábados de cada mês, das 10 às 13 horas, Jorge sai pelos bairros da cidade. Acompanham seresteiros, forrozeiros tradicionais, cantores e cantoras anônimos que não têm espaço negado no Rapadura. Uma programação feita da espontaneidade das pessoas que ganha a admiração de intelectuais da região.

No sábado, durante o aniversário, à tarde há espaço para bandas de Pop Rock. Uma turma da região mesmo, que merece o espaço. À noite tem forrozeiro pé-de-serra. Do outro lado, onde durante a semana que vem, na Expocrato, há apresentações das mais diversas num palco voltado para as apresentações mais da terra, e bem regionais mesmo, Jorge orienta a limpeza do terreno, onde muita gente vai arrastar a "chinela". Acerta com os homens que tudo deve ser na base do "0800". Uma figura que, ao longo dos anos, tem se tornado bem popular, e demonstra com sua simplicidade e paciência, um jeito especial de lidar com o público que ele cativou e o segue durante as apresentações do programa, mesmo após ter se tornado itinerante.

Algumas honrarias foram criadas nos últimos anos. A Medalha Chapeado Noventa é uma delas, em que foram homenageadas instituições como a Academia dos Cordelistas do Crato, Fundação do Folclore Mestre Elói e o jornalista Antônio Vicelmo, em 2006. Em 2007, a poeta Josenir Lacerda, radialista Aldemar de Morais e Escola de Música Elam Cariri. Ano passado, foi a vez do poeta Luciano Carneiro, Rádio Centro e o radialista Iderval Silva.

Jorge nasceu dentro de uma família apaixonada por rádio e continuou sua sina. É até um colecionador de rádio. Tem mais de 30. A identidade com os artistas da sua terra é uma forma de encantá-lo. A rádio AM o seu fascínio. Com o programa, já esteve em Iguatu e Fortaleza, recentemente. Levou uma turma de gente boa da região, entre eles os Aniceto.

O criador do Rapadura Cultural lamenta, nesses dez anos de peleja e muitas alegrias, a falta de reconhecimento merecido por parte da população e das autoridades e da iniciativa privada. "A gente percebe essa indiferença, talvez porque não vivo homenageando influentes da sociedade e sim pessoas simples. Se priorizasse, seria diferente o tratamento", diz. Mas, é justamente isso que acaba fazendo a diferença. O espaço aberto para simples comerciantes e artistas do povo.

A primeira apresentação ao vivo foi no dia 25 de maio de 2002, na Praça Siqueira Campos, Centro do Crato, onde obteve grande admiração do público. A partir daí, o programa acontece, pelo esforço pessoal do seu idealizador e dos artistas locais, de alguns apoios esporádicos, sempre no último sábado de cada mês na mesma praça, no horário de 10 às 12 horas, e nos eventos do Parque de Exposições Pedro Felício Cavalcante (Expocrato, Berro Cariri e Exproaf), transformando-se num símbolo de resistência da cultura caririense.

Mais informações:

Rapadura Cultura
Jorge Carvalho
Rua Antônio Tavares Bezerra, 1668, Bairro Santa Luzia
(88) 3521.4864


Fonte
Diário do Nordeste
Elizângela Santos

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